Provai os espíritos
A instrução apostólica é direta, e é dirigida aos que creem. Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo (1 Jo 4:1, Almeida). São João não está escrevendo a céticos que duvidam da existência de qualquer coisa espiritual. Está escrevendo a cristãos que estavam tendo experiências, e lhes diz que ter a experiência, por si só, não resolve nada.
A maioria de nós faz instintivamente o contrário. Alguma coisa acontece na oração — calor, lágrimas, uma certeza súbita, a sensação de ter sido interpelado — e a pura intensidade daquilo parece ser a sua própria credencial. Quanto mais forte a sensação, mais verdadeira deveria ser. A tradição ortodoxa não aceita essa inferência, e tem um corpo de ensino vasto e nada glamouroso sobre como pessoas sinceras erram nesse ponto. Ela pressupõe, desde o começo, que errar é o comum.
A palavra que os Padres usam
Os escritores ascéticos gregos e russos têm um termo para essa condição: prelest, em geral traduzido por engano ou ilusão espiritual. O português não tem equivalente exato, e isso é parte da dificuldade. A prelest não é mentira e não é loucura. É o estado de quem tomou outra coisa — a própria imaginação, os próprios nervos, a própria vaidade, ou uma inteligência que não é a sua — pela graça de Deus, e que muitas vezes é o último a suspeitar disso.
O padre Serafim Rose expôs o ensinamento principalmente a partir do bispo Inácio Brianchaninov, o hierarca russo do século XIX cujas obras reúnem os Padres mais antigos sobre este assunto. O bispo Inácio distingue duas formas. A primeira, mais rara, é espetacular: a pessoa busca estados espirituais elevados ou visões antes de ter sido purificada, apoiando-se no próprio juízo, e recebe visões à altura disso. A segunda é mais comum e muito mais silenciosa: um coração que quer o gozo de sentimentos santos enquanto ainda não está apto a eles.
Repare onde isso deixa o leitor. O caso perigoso neste ensinamento não é o impostor evidente; é a pessoa devota e bem-intencionada. O bispo Inácio, citado pelo padre Serafim, diz que todos nós estamos em alguma medida enganados, que sabê-lo é a melhor proteção que existe, e que o pior engano de todos é julgar-se livre de engano. Os critérios que vêm a seguir existem por causa dessa frase, e não apesar dela.
Primeiro: a humildade, que na prática quer dizer desconfiar de si
Os textos antigos são surpreendentemente pouco sentimentais. Santo Antão, o Grande, aconselhava que, quando alguma visão se apresenta, não se deve tomar susto, mas perguntar-lhe com firmeza quem é e de onde veio; uma manifestação vinda de Deus acalmará o medo, ao passo que um engano vacila ao encontrar uma alma firme. O bispo Inácio acrescenta que, se grandes santos por vezes quase foram enganados por espíritos que apareciam em forma de anjos, não estamos em posição de supor que nos sairíamos melhor.
O seu conselho prático, tirado dos mesmos Padres, é portanto recusar de todo tais percepções: não entrar em conversa com uma aparição, não se demorar nela, fazer o sinal da cruz e reconhecer-se indigno daquele tipo de comunicação. São Gregório do Sinai é citado no mesmo sentido — a mente forma com facilidade quaisquer imagens que deseje, e é justamente para quem não se vigia de perto que ela as forma.
Há um corolário consolador que se cita muito menos. Segundo este ensinamento, Deus não se ofende com a pessoa cautelosa que recusa algo por medo de ser enganada, mesmo que o recusado tivesse de fato sido enviado por Ele. A cautela é tratada como bom senso, não como ingratidão. Vale guardar isso se você for do tipo que se preocupa em ter sido reprovado num exame cuja existência ignorava.
Segundo: a paz, e que tipo de paz ela tem de ser
A graça, nos relatos patrísticos, reconhece-se menos pela sua intensidade do que pela sua quietude. Ela deixa a pessoa sóbria, recolhida, consciente dos próprios pecados e não especialmente interessada em descrever o que lhe aconteceu. A falsificação tende a deixar entusiasmo, a sensação calorosa de ter sido escolhida e uma vontade forte de contar a alguém. Esse é um critério sobre o depois, e não sobre o instante, e é justamente por isso que aplicá-lo exige paciência.
A mesma cautela se estende aos fenômenos físicos que costumam acompanhar o sentimento religioso. O padre Serafim, seguindo são João Clímaco, observa que as lágrimas têm muitas causas diferentes, algumas boas e outras não, e que a pessoa não deve confiar nas próprias lágrimas enquanto a sua alma não tiver sido purificada; a Escada é igualmente cautelosa quanto ao riso religioso. Nada disso quer dizer que o corpo seja irrelevante para a oração. Quer dizer que o corpo não é prova.
Terceiro: os frutos, medidos em anos
Por seus frutos os conhecereis (Mt 7:16, Almeida) é o critério de que todo mundo se lembra e que quase ninguém aplica direito, porque o fruto leva estações. A pergunta não é o que a pessoa sentiu naquela noite, nem mesmo no mês seguinte. É como ela está cinco anos depois: se ficou mais branda ou mais dura, se perdoa mais depressa, se ficou mais paciente com gente enfadonha, se ainda acha que a experiência tratava principalmente dela.
O padre Serafim aplicou esse teste em público, e é instrutivo que o tenha aplicado favoravelmente a protestantes. Falando em 1980 sobre uma comunidade cristã não ortodoxa de Eureka, na Califórnia, da qual haviam vindo vários dos seus próprios filhos espirituais, notou com aprovação que eles acreditavam na luta espiritual e no treino da alma, que se obrigavam a perdoar uns aos outros e a não guardar mágoas, e que acolhiam pessoas vindas da rua. Disse com franqueza que aquilo não era a plenitude do cristianismo tal como os ortodoxos a têm, e com igual franqueza que era bom até onde ia.
No mundo protestante, temos muitos exemplos de pessoas de coração terno que, por amor a Cristo, são boas com as outras pessoas.
Padre Serafim Rose, palestra sobre a simplicidade, 1979, em hieromonge Damasceno, Father Seraphim Rose: His Life and Works (“O padre Serafim Rose: sua vida e obra”), cap. 87 (St. Herman Press, 2003)
Quarto: alguém que não seja você tem de olhar para aquilo
Este é o critério de que os leitores modernos menos gostam, e é aquele em que a tradição mais insiste. A pessoa não consegue avaliar com segurança o próprio estado espiritual, porque a faculdade que faz a avaliação é justamente a que está sob suspeita. O remédio não é um guru. Perguntado sobre como encontrar um stáretz portador de Deus, o padre Serafim respondia que tal orientação não é dada aos nossos tempos, e apontava em vez disso para aquilo que o bispo Inácio chama de vida por conselho: um conselheiro dá conselhos, que você depois testa na sua própria experiência, e não ordens.
Na vida comum de uma paróquia isso significa um confessor — um sacerdote que o conhece ao longo de anos, a quem você pode contar o que aconteceu e a quem é permitido não se impressionar. É um arranjo lento e sem glamour, e funciona sobretudo por eliminar a câmara de eco privada em que a autoavaliação espiritual dá errado. O padre Serafim escreveu a um convertido que andava ocupado em dar notas ao próprio progresso com uma franqueza que envelheceu bem.
Você é jovem demais na Ortodoxia para estar avaliando o seu crescimento espiritual — isso é, na verdade, um sinal do seu orgulho.
Padre Serafim Rose, carta de 22 de junho de 1976, em hieromonge Damasceno, Father Seraphim Rose: His Life and Works, cap. 84 (St. Herman Press, 2003)
Quinto: a Escritura e os Padres, juntos e não a dedo
O último critério é a memória mais longa. A própria Escritura adverte que o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz (2 Cor 11:14, Almeida), o que é uma advertência a respeito de experiências atraentes, e não repulsivas. São João Cassiano, escrevendo no século V sobre os dons do Espírito, observou que por vezes se operam prodígios precisamente para inflar o homem que se julga possuidor de um dom, preparando-o assim para uma queda mais pesada. A Escada de são João adverte que até a interpretação da Escritura pode ser sugerida a um principiante por algo que não lhe quer bem.
Ler os Padres como um todo, em vez de garimpá-los à procura de uma frase que endosse o que você já experimentou, é o que faz disto um critério. Ninguém faz isso sozinho nem depressa. É o trabalho comum de uma vida inteira dentro da Igreja, e é por isso que a tradição amarra o discernimento aos sacramentos, à confissão e ao tempo, e não a uma técnica que qualquer um pudesse aprender num fim de semana.
O movimento carismático, e como ler o que ele escreveu a respeito
O capítulo mais longo de Orthodoxy and the Religion of the Future — o capítulo VII, na Quinta Edição (St. Herman of Alaska Brotherhood, 2004) — trata do avivamento carismático que então se espalhava por comunidades católicas romanas e protestantes. Antes de resumir o argumento dele, a paróquia quer dizer o que o padre Serafim também disse: que as pessoas daquelas reuniões eram, na sua maioria, cristãos sinceros e bem-intencionados, que amavam a Cristo e queriam mais de Deus. Ninguém que leia isto deve ficar com a impressão de que a sinceridade deles está aqui em questão.
O argumento dele corre assim. O critério para julgar uma experiência espiritual não é a experiência, mas a atitude que se toma diante dela; a categoria da prelest estava em boa parte ausente dos manuais espirituais ocidentais daquele período, de modo que o movimento não dispunha de ferramenta herdada para o serviço; e, quando ele pôs os testemunhos publicados dos participantes ao lado do bispo Inácio, encontrou o padrão da segunda forma, a mais silenciosa, do engano. A sua conclusão foi severa, e não vamos disfarçá-la: ele julgou o movimento uma falsificação da vida espiritual da própria Igreja, e escreveu a respeito com aspereza.
Duas ressalvas honestas se seguem. O tom daquele capítulo é mais duro do que em quase todo o resto da sua obra, e muitos leitores ortodoxos que aceitam os seus critérios ainda assim acham o tom difícil. Ele mesmo conhecia o perigo e o nomeou impresso em 1980, escrevendo sobre convertidos que se haviam tornado demasiado livres com as palavras heresia e herege, e sobre a presunção que pode se esconder dentro de uma posição tecnicamente exata.
Mesmo quando é formulada de maneira teologicamente correta, essa atitude é espiritualmente errada
Padre Serafim Rose, “In Defense of Fr. Dimitri Dudko” (“Em defesa do padre Dmítri Dudko”), The Orthodox Word nº 2 (1980), p. 131, citado em hieromonge Damasceno, Father Seraphim Rose: His Life and Works, cap. 84 (St. Herman Press, 2003)
Critérios, não veredictos
O que nos traz ao leitor. Tudo o que está acima é um conjunto de critérios. Não é uma sentença sobre a sua reunião de oração, a sua conversão ou aquela noite em que aconteceu algo que você nunca conseguiu explicar a ninguém. Esta paróquia não sabe o que aconteceu com você, não tem como saber, e não vai lhe dizer. Quem lhe oferece um diagnóstico seguro de uma experiência a que não assistiu está fazendo algo que os Padres não faziam.
O que a tradição oferece, em vez disso, é um modo de testar, elaborado ao longo de séculos por pessoas que levavam a sério o risco do autoengano e que o aplicavam a si mesmas antes de a qualquer outro. O uso correto desses critérios é lento e voltado para dentro: espere; não construa a sua vida sobre uma única hora; conte a alguém mais velho na fé do que você; e observe como você estará daqui a cinco anos. É um conselho sem emoção. Também era o que se dava aos melhores discípulos que os Padres tiveram.
Uma última coisa deve ser dita, porque o testar pode soar como desconfiança de Deus. Não é. O relato do próprio padre Serafim sobre a vida cristã era que ela se forma na dura luta para adquirir o Reino dos Céus (Orthodoxy and the Religion of the Future, cap. VIII §2, Quinta Edição, 2004), o que é coisa muito diferente de nervosismo. A cautela a respeito das nossas próprias impressões existe para proteger algo, não para encolhê-lo. Se você teve uma experiência que não consegue explicar, é bem-vindo a levá-la a um sacerdote em Kovan, que não vai se escandalizar e vai ficar contente por você ter perguntado.