Dormição da Mãe de DeusIgreja Ortodoxa Russa · Singapura
A Mãe de Deus e os santos

A comunhão dos santos, explicada

Se a Igreja é um só corpo e a morte não o desmembra, então muita coisa decorre disso para o modo como os cristãos celebram e para o modo como choram os seus mortos.

Atualizado 2026-09-23 · 9 min de leitura

Este artigo foi escrito em inglês e traduzido. Se alguma passagem não for clara, o original inglês é que faz fé.

Em resumo

A comunhão dos santos significa que a Igreja é um só corpo dos dois lados da morte. Os cristãos ortodoxos sustentam que os que morreram em Cristo continuam membros da mesma Igreja, que eles oram pelos vivos e que os vivos oram por eles. Hebreus 12 descreve os cristãos como já cercados por uma nuvem de testemunhas. Na prática, isso molda o culto ortodoxo, o calendário e o modo como os ortodoxos vivem o luto.

A sala está mais cheia do que parece

Entre numa igreja ortodoxa numa manhã de dia útil e talvez encontre oito pessoas, um leitor e um sacerdote. Olhe para as paredes e a conta muda. Os ícones não são ilustrações de gente ausente; estão dispostos como se dispõe uma assembleia, voltados para dentro, e o edifício foi pensado para que o visitante se sinta em minoria.

Isso é a doutrina em forma de arquitetura. Os cristãos ortodoxos creem que a Igreja tem membros que morreram e que esses membros não se demitiram. A pequena assembleia de uma Liturgia de quarta-feira é a fração visível de algo muito maior, e o ofício parte do princípio de que os demais estão presentes, e não apenas lembrados.

Este artigo expõe qual é essa crença, de onde ela vem e o que muda quando uma comunidade de fato vive por ela. Entre as práticas que os visitantes protestantes acham estranhas, esta é a menos contestada em princípio e a de maior alcance nos seus efeitos.

De onde vem a própria expressão

Antes de tudo, honestidade: a expressão comunhão dos santos não é de origem ortodoxa. Ela pertence ao Símbolo dos Apóstolos, um credo ocidental que a Igreja Ortodoxa não usa nos seus ofícios. O que os cristãos ortodoxos confessam em cada Liturgia é o Credo de Niceia e Constantinopla, concluído em 381, que diz, em vez disso: uma só Igreja, santa, católica e apostólica.

A expressão latina, sanctorum communionem, é também notoriamente ambígua, e há muito os comentadores observam que ela pode significar tanto a comunhão das pessoas santas quanto a comunhão nas coisas santas. Os dois sentidos acabam importando, porque na prática ortodoxa a convivência dos santos e a participação na Eucaristia não são dois assuntos, mas um só.

Ajuda lembrar o que os escritos apostólicos querem dizer com santos. Paulo se dirige a comunidades comuns e brigonas chamando-as de santos: os de Roma são chamados a ser santos, os de Corinto são chamados santos, e os filipenses também. A palavra marca pessoas separadas no batismo, não uma elite. Nesse uso, a comunhão dos santos inclui o leitor que dormiu demais e o visitante lá no fundo.

Hebreus 12, e o tempo dos verbos

O texto a que os cristãos ortodoxos recorrem primeiro está em Hebreus. Depois da longa lista dos fiéis no capítulo 11, o autor se volta para os seus leitores: “Portanto, nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço” (Hb 12:1, Almeida). A palavra grega para testemunhas é a que nos dá mártires, e ela carrega os dois sentidos ao mesmo tempo: os que testemunharam e os que observam.

Alguns versículos adiante, o mesmo capítulo torna-se surpreendente. “Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos, à universal assembleia e igreja dos primogênitos... e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12:22-24, Almeida). O tempo verbal não é futuro. Diz-se aos leitores que eles já chegaram.

O culto ortodoxo toma essa frase ao pé da letra e se constrói de acordo. Se os cristãos reunidos na terra chegaram à Jerusalém celestial, aos anjos e aos espíritos dos justos, então um ofício religioso é o encontro de duas assembleias que se revelam uma só.

A morte não desmembra o corpo

A afirmação de fundo é sobre que espécie de coisa a Igreja é. Paulo a chama de corpo e diz desse corpo que, “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Cor 12:26, Almeida). Corpos não perdem membros em funerais, e a Ortodoxia nunca conseguiu enxergar como um membro de Cristo poderia deixar de sê-lo ao morrer.

O próprio argumento de Cristo sobre a ressurreição aponta na mesma direção. A respeito de Abraão, Isaque e Jacó, sepultados havia muito, ele diz que “Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele todos vivem” (Lc 20:38, Almeida). Paulo acrescenta que nem a morte nem a vida podem nos separar do amor de Deus em Cristo Jesus, e a separação do amor de Cristo seria a única coisa capaz de romper o vínculo.

Dessas duas convicções decorre todo o resto deste artigo. Se os que partiram estão vivos em Cristo, e se os vivos estão unidos a Cristo, então os vivos e os que partiram estão unidos entre si. Não é um acréscimo místico. É a consequência comum de levar a sério, ao pé da letra, a metáfora do corpo.

O que isso faz com o culto

A imagem mais clara está no ofício de preparação que antecede a Liturgia, a proscomídia. O sacerdote corta um quadrado do primeiro pão, o Cordeiro, que virá a ser o Corpo de Cristo. De outros pães ele retira pequenas partículas: uma pela Theotókos, outras pelas ordens dos santos, depois partículas pelos vivos cujos nomes foram entregues e partículas pelos falecidos. Todas são colocadas num mesmo disco, em torno do Cordeiro.

No fim da Liturgia essas partículas são postas no cálice, com a oração de que os pecados de todos os que foram comemorados sejam lavados pelo precioso Sangue de Cristo. Um visitante que observe da nave não verá isso acontecer. O que se encena naquele pequeno disco é toda esta doutrina: vivos e mortos, numa única companhia, reunidos em torno de um só centro, que é Cristo.

O calendário diz a mesma coisa mais devagar. Cada dia do ano traz a memória de cristãos determinados, e o domingo depois de Pentecostes é guardado como o Domingo de Todos os Santos, de modo que o primeiro ato da Igreja depois de receber o Espírito Santo é apontar para as pessoas que o Espírito produziu. Uma comunidade que vive esse calendário está sendo apresentada aos seus próprios parentes, um dia de cada vez.

O que isso faz com o luto

A Ortodoxia não pede aos enlutados que parem de sofrer, e qualquer apresentação dela que sugira o contrário saiu errada. Paulo escreve que os cristãos não devem entristecer-se “como os demais, que não têm esperança” (1 Ts 4:13, Almeida), o que regula a tristeza em vez de proibi-la. Diante do túmulo de um amigo morto havia quatro dias, sabendo o que estava prestes a fazer, Jesus chorou.

O que a Igreja oferece, em lugar disso, é trabalho a fazer. Há orações no terceiro, no nono e no quadragésimo dia depois de uma morte, e no aniversário. Há a panikhida, um breve ofício memorial que pode ser celebrado numa casa ou junto ao túmulo. Há os sábados de finados ao longo do ano, em que paróquias inteiras leem em voz alta longas listas de nomes, e na prática russa há a Radonitsa, nas semanas depois da Páscoa, quando as famílias levam a saudação pascal ao cemitério.

Pequenos detalhes carregam boa parte disso. Traz-se trigo cozido para os ofícios memoriais, por causa do grão que precisa cair na terra e morrer antes de dar fruto. No fim, a assembleia canta Memória Eterna, que não é um desejo de que os mortos sejam lembrados por nós, pois a nossa memória é curta, mas uma oração para que sejam guardados na memória de Deus, que não é curta.

O luto vivido assim não fica menor, mas deixa de ser privado. Uma viúva da paróquia tem para onde levar o nome do marido numa manhã de sábado, e outras cem pessoas o dizem em voz alta junto com ela.

Onde os cristãos divergem aqui, e onde não divergem

Boa parte disso é terreno comum, e seria desonesto encenar uma discordância que não existe. A maioria dos cristãos protestantes confessa a comunhão dos santos, sustenta que os crentes que morreram estão com Cristo e espera revê-los. O hino sobre os santos de Deus que labutaram e lutaram e viveram e morreram pelo Senhor a quem amavam é cantado em muitíssimas igrejas no dia primeiro de novembro.

A diferença está em saber se a relação é ativa agora, e nos dois sentidos. A Ortodoxia sustenta que os santos oram pela Igreja na terra e que a Igreja na terra ora pelos seus falecidos, e coloca as duas coisas nos seus ofícios toda semana. Muitas tradições protestantes sustentam que os que partiram estão com Cristo e param por aí, em parte por uma preocupação real de que o trânsito através dessa fronteira acabe deslocando Cristo do centro.

Essa preocupação merece uma resposta franca, e não um golpe de debate. Na Liturgia ortodoxa, toda a companhia, vivos e falecidos, está disposta em torno de uma só coisa, e essa coisa não é um santo. Se a disposição alguma vez deixar de apontar para Cristo, a disposição fracassou, e os próprios hinos da Igreja são as primeiras testemunhas contra ela.

essas pessoas são pessoas calorosas, amorosas, que evidentemente amam a Cristo

Padre Serafim Rose, conferência “Orthodoxy in the USA” (“A Ortodoxia nos EUA”), The Orthodox Word nº 94 (1980), citada em hieromonge Damasceno, Father Seraphim Rose: His Life and Works (“O padre Serafim Rose: sua vida e obra”), cap. 86

A festa que dá nome a esta paróquia

Esta paróquia é a Paróquia da Dormição da Mãe de Deus, e a festa que ela carrega, celebrada em 15 de agosto no calendário eclesiástico, é uma morte. Dormição quer dizer adormecimento. A Igreja passa quinze dias preparando-se para ela, jejua antes dela, sepulta um epitáfio bordado com hinos tomados da Sexta-Feira Santa, e depois canta a respeito dela por dias, com uma alegria inconfundível.

O ícone da festa explica todo o argumento de uma só olhada. Os apóstolos estão em volta de um féretro; atrás dele, Cristo está de pé segurando uma criança pequena envolta em branco, que é a alma de sua mãe. Os papéis da Natividade estão invertidos, e a coisa é dita sem uma palavra: ela um dia o segurou quando bebê, e agora é ele quem a segura. É assim que a Igreja imagina o morrer em Cristo.

O padre Serafim Rose, que chegou à Ortodoxia vindo de uma família protestante da Califórnia, passou boa parte dos seus últimos anos ensinando aos convertidos ortodoxos como falar com as pessoas que haviam deixado para trás. Ele sustentava o ensinamento ortodoxo tradicional sobre a Igreja sem suavizá-lo, e recusava-se a tirar conclusões sobre onde qualquer pessoa em particular se encontra diante de Deus, preferindo uma fórmula que recebera do padre Dmítri Dudko.

Qualquer pessoa é bem-vinda à vigília de sábado à noite e à Liturgia de domingo de manhã em Kovan. Traga os nomes dos seus próprios mortos, se quiser; podem ser entregues ao sacerdote antes do ofício, e serão lidos. Isso não é um pedido para que se concorde com tudo o que está nesta página. É uma cortesia comum, estendida por uma parte de uma família a outra.

Devemos ver os não ortodoxos como pessoas a quem a Ortodoxia ainda não foi revelada, como pessoas que são potencialmente ortodoxas

Padre Serafim Rose, carta de 27 de novembro de 1980, em hieromonge Damasceno, Father Seraphim Rose: His Life and Works, cap. 84 (St. Herman of Alaska Brotherhood)

Perguntas frequentes

O que os cristãos ortodoxos querem dizer com comunhão dos santos?

Querem dizer que a Igreja é um único corpo cujos membros incluem tanto os vivos quanto os que morreram em Cristo. Tem-se os falecidos por vivos nele, conscientes, e orando pela Igreja na terra, enquanto a Igreja na terra ora por eles. A expressão em si vem do Símbolo dos Apóstolos; a Igreja Ortodoxa confessa, em vez dele, o Credo de 381, mas sustenta a mesma realidade.

Hebreus 12:1 ensina mesmo isso?

Ele descreve os cristãos como cercados por uma grande nuvem de testemunhas, usando uma palavra que significa ao mesmo tempo os que testemunharam e os que observam. Poucos versículos adiante, o mesmo capítulo diz aos seus leitores que eles já chegaram à Jerusalém celestial, a inumeráveis anjos e aos espíritos dos justos aperfeiçoados. O culto ortodoxo leva esse presente a sério e é construído em torno dele.

Em que isso difere do que a maioria dos protestantes crê?

Muita coisa é compartilhada: que os crentes que morrem estão com Cristo, e que os cristãos voltarão a se ver. A diferença está em saber se a relação é ativa agora e nos dois sentidos. A Ortodoxia ora pelos seus falecidos e pede as orações dos santos em cada ofício. Muitas tradições protestantes sustentam que os que partiram estão com Cristo e param aí, por zelo pela unicidade de Cristo.

A Ortodoxia espera que os enlutados não sofram?

Não. Paulo diz aos cristãos que não se entristeçam como os que não têm esperança, o que dá forma ao luto em vez de proibi-lo, e Cristo chorou diante do túmulo de Lázaro. A Ortodoxia dá ao luto uma estrutura: orações no terceiro, no nono e no quadragésimo dia, ofícios memoriais junto ao túmulo, sábados de finados ao longo do ano e o canto de Memória Eterna, uma oração para que Deus se lembre.

Posso mandar comemorar os meus parentes falecidos num ofício ortodoxo?

Os nomes dos falecidos são escritos e entregues ao sacerdote antes da Liturgia, e partículas são retiradas por eles no ofício de preparação. A prática quanto a comemorar os não ortodoxos varia de paróquia para paróquia e é assunto para o pároco, não para um site. Perguntar é inteiramente normal, e a resposta será dada com franqueza.

Fontes e leituras complementares

  1. A Fé Ortodoxa: a Igreja — O artigo do Credo sobre a Igreja, e o que a Ortodoxia quer dizer ao chamá-la una e santa.
  2. A Fé Ortodoxa: o funeral — O ofício de sepultamento, os dias de memória e o lugar do luto na prática ortodoxa.
  3. Igreja Ortodoxa na América: orações pelos falecidos — Uma breve resposta pastoral sobre por que a Igreja ora pelos que morreram.
  4. A Fé Ortodoxa: Pentecostes — Pentecostes e o Domingo de Todos os Santos que o segue no ano litúrgico.
  5. Segundo Concílio de Niceia (787 d.C.), definição — Uma declaração antiga sobre honrar os santos e buscar as suas intercessões como tradição recebida.
  6. Hieromonge Damasceno, Father Seraphim Rose, cap. 84: Pastoral Guidance — A carta de 27 de novembro de 1980, fonte da citação final.
  7. Hieromonge Damasceno, Father Seraphim Rose, cap. 86: Orthodoxy of the Heart — A conferência de 1980 citada acima, sobre os cristãos protestantes que ele conheceu na Califórnia.
  8. OrthoChristian: padre Serafim Rose, homilias e artigos reunidos — Índice dos seus escritos mais breves em inglês, vários deles reflexões sobre dias de festa.

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