O que é a humildade e por que os cristãos ortodoxos a valorizam tanto?
A humildade é a virtude mais citada e menos compreendida. Na tradição ortodoxa, ela não é um sentimento de inutilidade nem uma encenação de modéstia. É um modo de ver: a pessoa humilde vê a si mesma e a Deus como são. Sabe que é criatura, que todo bem que há nela é dom e que é também pecadora e precisa de perdão. Nem o orgulho que atribui a si tudo, nem o desespero que não atribui a si nada, é verdade.
Por isso os Padres põem a humildade na base. O orgulho é o pecado original na leitura que a Igreja faz da queda, e a humildade é o seu oposto direto. O convite do próprio Cristo é “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11:29 ouvir na Bíblia em áudio), e os autores ascéticos da Igreja o tratam como a chave de todo o resto. Pedro faz eco: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” é uma promessa que a Igreja toma ao pé da letra (1 Pedro 5:5 ouvir na Bíblia em áudio). Pode-se jejuar, orar e dar esmolas; sem humildade, advertem os Padres, até as boas obras podem converter-se em alimento da presunção.
O que Jesus ensina sobre a humildade?
A lição mais clara do Evangelho é a parábola do Publicano e do Fariseu. Dois homens subiram ao templo para orar; o fariseu agradeceu a Deus por não ser como os outros homens, enquanto o publicano, de longe, dizia: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador” (Lucas 18:10-14 ouvir na Bíblia em áudio). Jesus diz que o publicano voltou para casa justificado. A Igreja guarda essa parábola tão de perto que o Domingo do Publicano e do Fariseu abre o período pré-quaresmal, e a Oração de Jesus é construída sobre o mesmo clamor.
O fariseu não é condenado por fazer o bem, pois de fato jejuava e dava o dízimo. É condenado pelo que fez com isso: transformou suas boas obras em comparação. O publicano não tem comparação nem desculpa; tem apenas um pedido. Paulo põe o padrão ainda mais alto: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Filipenses 2:5 ouvir na Bíblia em áudio), e descreve em seguida o Filho que se esvaziou, tomou a forma de servo e se fez obediente até a morte. A humildade ortodoxa é, em sua raiz, imitação dessa doação de si.
O que dizem os Padres? João Clímaco e Isaac o Sírio
João Clímaco, que escreveu A Escada da Ascensão Divina no Monte Sinai por volta do ano 600, dedica três degraus seguidos ao assunto: o degrau 23 ao orgulho insensato, o 24 à mansidão e o 25 à humildade, que ele chama de destruidora das paixões. A ordem é deliberada. O orgulho é nomeado primeiro como a doença, a mansidão é o primeiro sinal de recuperação e a humildade é a saúde consolidada. Sua abordagem é prática: a humildade se julga pelo modo como a pessoa vive e suporta as coisas, não pelo que diz de si mesma.
Isaac o Sírio, bispo de Nínive no século VII, cujas Homilias Ascéticas são amplamente lidas nos mosteiros ortodoxos, adota um tom mais brando e místico. É frequentemente citado ao descrever a humildade como a veste da divindade, e trata a misericórdia para com os outros e a consciência honesta das próprias falhas como partes de um mesmo movimento. Para Isaac, quem conhece de verdade a própria fraqueza não se torna amargo nem duro; torna-se terno diante da fraqueza dos outros. Você pode ver como isso se liga à orientação de confessores experientes em nosso artigo sobre pais espirituais e anciãos.
O que ensinaram São Silouan e o Ancião Paísio?
São Silouan do Athos (1866-1938) é lembrado por uma breve palavra que recebeu, em meio a uma luta contra o orgulho, segundo o relato de seu discípulo, o Arquimandrita Sofrônio: “Mantém o teu espírito no inferno e não desesperes.” As palavras costumam ser mal lidas como uma ordem para se sentir mal. Estão mais perto do oposto. Silouan mantinha juntas duas verdades: que não merecia nada e que a misericórdia de Deus é maior que toda falha. A humildade, em sua experiência, é essa tensão mantida firme, sem deixar que nenhuma das metades desmorone.
O Ancião Paísio do Monte Athos (1924-1994, glorificado como santo pelo Patriarcado Ecumênico em 2015) é lembrado por um ensinamento simples e bem-humorado e por exortar as pessoas a cultivar bons pensamentos sobre os outros em vez de procurar defeitos. Os dois santos são diferentes de temperamento, mas concordam nisto: a humildade traz alegria, não tristeza. A pessoa humilde fica aliviada do peso de defender-se e pode ser generosa com os outros. Para a face mais simples dessa santidade, veja também nosso artigo sobre a loucura por Cristo.
O que a humildade não é: falsa humildade e ódio de si
Várias imitações merecem nome. Há a autodepreciação como hábito social, em que a pessoa se diminui na esperança de ser contradita. Há o ódio de si, que não é humildade, mas uma forma de orgulho voltado para dentro, já que continua fazendo do eu o centro das atenções. Há a falsa humildade nas palavras, quando alguém diz “não sou nada” e se eriça diante de uma pequena correção. E há o orgulho silencioso de parecer humilde, que os Padres consideram uma das armadilhas mais sutis e que é discutido mais amplamente em engano espiritual.
A humildade também não é passividade nem ausência de firmeza. A pessoa humilde pode dizer não, discordar, denunciar uma injustiça e defender uma criança. O que muda é o motivo: ela o faz sem precisar vencer e sem desprezo pela pessoa do outro lado. A humildade tampouco exige fingir não ter dons. Ver um talento com exatidão, como dom recebido, faz parte da verdade; apenas não deixa espaço para a jactância.
Como se mostra a humildade na vida familiar e no trabalho?
A humildade se torna real nos pequenos ambientes. Em casa, aparece como ser o primeiro a pedir perdão, como ouvir o relato do cônjuge sem preparar uma réplica e como aceitar que a visão de um filho sobre um conflito possa conter algo de verdadeiro. No trabalho, aparece como admitir um erro cedo, dar crédito aos colegas, aceitar correção de alguém mais jovem na função e fazer a tarefa não recompensada sem comentário. Tiago escreve: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tiago 4:6 ouvir na Bíblia em áudio); o sentido prático é que a graça flui mais livremente onde deixamos de defender uma posição.
No mosteiro, isso assume a forma da obediência, que existe justamente para treinar esse hábito; veja nosso artigo sobre a obediência monástica. Em um lar assume formas menos formais, mas o objetivo é o mesmo: ter menos lugares em que minha própria vontade precise prevalecer. Não se perde a confiança com isso. Quem já não precisa ter razão costuma ser mais firme, porque sua paz não depende da próxima discussão.
O que fazer depois de ser humilhado?
Ser desconsiderado, corrigido em público ou preterido dói, e nenhum Padre finge o contrário. A tradição sugere uma sequência. Primeiro, não dizer nada na primeira hora, se possível; a primeira reação raramente é a mais sábia. Segundo, perguntar com franqueza se há alguma verdade na crítica, mesmo que o modo tenha sido indelicado. Se houver, agradecer a Deus pela correção; se não, deixá-la ir e orar pela pessoa. Terceiro, resistir à tentação de ensaiar a ofensa; os Padres chamam isso de alimentar a paixão.
Convém também conversar com um confessor, que pode ajudar a separar o que pertence ao orgulho do que pertence a um erro real que deve ser tratado. A humilhação não é, em si, santa, e a Igreja não pede a ninguém que aceite abuso continuado em nome da humildade; em tais casos, deve-se consultar um sacerdote. Muitas vezes, porém, a ferroada é justamente o que mostra o quanto dependíamos de nossa própria imagem. Levada a Deus, até isso pode tornar-se uma porta. O sacramento da confissão é o lugar habitual para levá-la.
Sete práticas simples
Nenhuma das seguintes é difícil, e nenhuma exige circunstâncias especiais. Comece cada dia com a oração do Publicano, “Senhor, tem piedade”. Agradeça a Deus por algo que você não mereceu. Seja o primeiro a pedir desculpas quando uma relação estiver tensa. Aceite uma correção uma vez sem responder. Faça a cada dia uma tarefa despercebida para outra pessoa. Abstenha-se de falar de si durante uma conversa inteira. E, antes de dormir, nomeie uma coisa que fez de errado sem acrescentar desculpa.
A humildade não se fabrica por técnica, e os Padres o dizem: é dom de Deus que convidamos pelo trabalho da vida diária. Ouvir a leitura das Escrituras é um modo de permanecer em contato com a fonte; o Evangelho de Lucas está disponível na Bíblia em áudio, e os ofícios da paróquia estão listados na página da Liturgia. Se desejar aprofundar qualquer uma dessas práticas, fale com seu sacerdote.



