O que é a regra de um altar, uma Liturgia?
Visite uma igreja ortodoxa em um domingo comum e encontrará uma única Divina Liturgia, com a presença de toda a paróquia, na qual o sacerdote, e os sacerdotes que servem com ele, comungam junto com o povo. Não há uma missa matinal para alguns e outra mais tarde para outros, nem uma escala de ofícios distribuídos pela manhã. A prática usual, com poucas exceções, é que um altar acolha uma só Liturgia por dia e que um sacerdote celebre apenas uma Liturgia por dia.
Trata-se de uma questão de costume e de ordem eclesiástica, não de uma declaração dogmática única. Convém dizer com franqueza que não há número de cânon que eu possa citar com responsabilidade como sua fonte. As fontes consultadas não indicam nenhum, e a afirmação, às vezes encontrada na internet, de que um cânon antigo específico a decreta não pôde ser verificada. O que se pode mostrar é em que a prática se fundamenta: no ensinamento da Igreja sobre a unidade da Eucaristia, no testemunho antigo dos Padres e no Typikon, que não prevê duas Liturgias no mesmo dia, nem mesmo em uma grande festa. Entender a regra é entender a ideia que a sustenta. Para o pano de fundo dessa ideia, veja nosso artigo sobre a Eucaristia e, para o modo como a Igreja trata suas regras em geral, nosso artigo sobre o Typikon.
O que diz a Escritura sobre um só pão, um só corpo?
O argumento de Paulo em Primeira Coríntios é a raiz: “Porque nós, embora muitos, somos um só pão e um só corpo, pois todos participamos do único pão” (1 Coríntios 10:17 ouvir na Bíblia em áudio). A Eucaristia não é posse privada de cada fiel, e muito menos de cada sacerdote. É o ato em que os muitos se tornam um só corpo. Multiplicar celebrações separadas, como se cada uma fosse um acontecimento independente, obscurece essa lógica.
O Novo Testamento apresenta a mesma realidade na vida da primeira comunidade. Nos Atos, os fiéis eram perseverantes “na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações” (Atos 2:42 ouvir na Bíblia em áudio), e, na Última Ceia, Cristo deu o pão com as palavras “Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22:19 ouvir na Bíblia em áudio). O que Ele deu, deu à mesa dos discípulos reunidos. A Igreja entendeu o mandamento como um ato da comunidade reunida (veja também o relato de Paulo sobre a Ceia em 1 Coríntios 11:23-26 ouvir na Bíblia em áudio), e a regra de um altar e uma Liturgia é um modo de manter visível essa forma.
O que a Igreja primitiva ensinava sobre uma só Eucaristia?
Por volta do início do século II, Inácio, bispo de Antioquia, escreveu à Igreja de Filadélfia: “Procurai, pois, ter uma só Eucaristia” (Aos Filadelfienses 4). Ele prossegue dizendo que há uma só carne do Senhor, um só cálice que nos une em seu sangue, um só altar e um só bispo com o presbitério e os diáconos. A formulação pertence à primeira geração depois dos apóstolos e já une a Eucaristia, o altar e o bispo.
O ponto não é que nada possa jamais ser repetido, mas que a Eucaristia é o sinal de uma só Igreja reunida com seu bispo. As comunidades locais eram pequenas o bastante para que todos os cristãos da cidade se reunissem. À medida que as igrejas se multiplicaram, a autoridade do bispo estendeu-se aos sacerdotes que ele enviava, e cada Liturgia passou a ser entendida como pertencente a essa única comunhão (Romanos 12:5 ouvir na Bíblia em áudio diz que nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo). O único altar e a única Liturgia tornaram-se a forma visível dessa unidade. Você pode ler mais sobre o papel do bispo em nosso artigo sobre a sucessão apostólica.
O que é o antimínsio e por que ele importa?
O antimínsio, do grego que significa “em lugar da mesa”, é um pano retangular de linho ou seda colocado sobre o altar. Costuma mostrar o sepultamento de Cristo com os quatro Evangelistas, e uma pequena relíquia é costurada nele. Leva a assinatura do bispo diocesano, e essa assinatura é o cerne da questão: mostra que o sacerdote serve com a autoridade do bispo e em comunhão com ele. Uma igreja sem antimínsio normalmente não pode celebrar a Liturgia até que lhe seja fornecido um.
O pano também explica como a regra funciona na prática. Onde uma segunda Liturgia é realmente necessária, como em algumas grandes catedrais, usa-se um altar auxiliar com seu próprio antimínsio. Nesse caso o arranjo continua respeitando o princípio: é um segundo altar, não uma segunda Liturgia no primeiro. O antimínsio liga assim cada celebração, por mais numerosas que sejam, ao bispo e à única Igreja.
Vários sacerdotes podem servir uma só Liturgia?
Sim, e esta é a outra metade do quadro. A concelebração é parte normal e alegre do culto ortodoxo: vários sacerdotes e diáconos podem servir juntos em um só altar, presididos pelo celebrante principal. O bispo concelebra com seus sacerdotes, e o clero visitante é acolhido no altar. Em vez de cada sacerdote servir separadamente, um após o outro, eles servem juntos, e o povo comunga junto.
É isso que a regra protege. Teólogos ortodoxos há muito observam que a multiplicação de celebrações privadas afasta a Liturgia da assembleia, ao passo que a concelebração a mantém unida. Isso também situa a questão: não é que a Igreja queira restringir o sacerdote, mas que ela considera a Eucaristia o ato de uma comunidade na qual clero e leigos têm, cada um, sua parte. O sacerdote que serve uma Liturgia celebrou, na prática, pelo povo que lhe foi confiado.
Há exceções?
Há, e os relatos honestos as admitem. Em algumas grandes catedrais e na tradição russa, mais de uma Liturgia já foi servida no mesmo dia, com a bênção do bispo, sobretudo quando o número de fiéis ou de sacerdotes tornava inviável outro arranjo. O liturgista russo Nikolai Uspênski observou que o próprio Typikon não conhece duas Liturgias no mesmo dia, nem mesmo em uma grande festa, mas reconheceu que a prática russa, ainda assim, as inclui. Tais casos são exceções, reguladas pelo bispo, e não uma mudança de princípio.
Outras situações práticas exigem discernimento pastoral. Em regiões onde a Igreja é pequena e os sacerdotes são poucos, o sacerdote pode precisar viajar, e a questão de quantas vezes ele pode servir em um dia cabe ao seu bispo. Várias paróquias que compartilham um mesmo edifício podem usar altares distintos ou horários diferentes, e o arranjo costuma ser definido com o bispo diocesano. O que importa em tudo isso é que a exceção seja feita por autoridade e por necessidade, e não se torne regra por comodidade.
O que isso significa para o fiel comum?
A lição prática é que o domingo pertence a toda a paróquia reunida. Se você pode assistir à Liturgia, o convite da Igreja é estar presente do começo ao fim, orar com os demais e comungar quando estiver preparado, não procurar um ofício que se ajuste à sua agenda. A unidade da Eucaristia exprime-se em parte na unidade dos que vêm. Os horários dos ofícios estão na página da Liturgia, e o ritmo do ano aparece no calendário da Igreja.
Alguns consideram uma disciplina chegar para o início e ficar até o fim. É também um dom: quando toda a comunidade está diante de um só altar, ninguém é mero espectador do ofício de outro. Muitas paróquias também oferecem uma refeição comum após a Liturgia, o que leva o mesmo instinto à vida cotidiana; para saber o que esperar de uma primeira visita, veja nosso guia da vida paroquial. Para ouvir as passagens sobre a Última Ceia e a primeira comunidade cristã, você pode usar a Bíblia em áudio.



